A criatividade nascida das ruas
Amanda AMX é artista visual e criativa da Zona Sul de São Paulo, nascida e criada no Parque Santo Antônio.
Amanda AMX
9/9/20269 min read

Suas principais linguagens de expressão são o graffiti, a customização de roupas, a pintura, a ilustração, o audiovisual e o design, transformando suas vivências e seu repertório cultural em linguagem visual.
Um sonho que nasceu na Viela do Córrego.
Quando percebeu que dava pra viver de arte? Como você se sente nessa rotina?
Minha trajetória começa no Parque Santo Antônio, na Viela do Córrego, onde eu cresci. Eu sempre falo sobre essa viela porque foi a partir dela que comecei a sonhar com outros mundos, né? Como o próprio nome já diz, a viela dava de frente para um córrego. Uma das janelas de casa era de frente pro córrego e a outra, de frente para a viela. E o que eu via nesses dois lugares não era muito agradável. Basicamente, cresci com uma visão limitada do que existia ali pra mim.
Desde criança eu sempre fui muito curiosa e criativa. Brincava muito sozinha, gostava de desenhar e comecei a desenhar pra pensar. Gostava de imaginar outros cenários, outros ambientes. Então ficava ali com meus papéis, minhas canetinhas e meus lápis, brisando e pensando em várias coisas. O desenho me acompanhou durante muito tempo. Eu nem consigo lembrar desde quando. E foi ficando cada vez mais frequente.
No fim do ensino médio, comecei a trabalhar e a frequentar o centro da cidade. Fui entendendo que existiam outros espaços para além daquele que eu já conhecia e, através disso, também comecei a perceber as desigualdades, principalmente de acesso. Eu acredito muito que estar no transporte público, vender sua força de trabalho e passar por humilhações e situações adversas te molda muito como pessoa, né? Faz você despertar, principalmente quando tem ferramentas e pessoas ao seu lado que compartilham do mesmo pensamento.
Trabalho e desigualdades...
Foi nesse período, trabalhando em um restaurante e atendendo muito playboy, muita pessoa rica, que comecei a pensar em como conseguiria pagar meu curso, meu aluguel e ainda ter algum tipo de lazer, morando tão longe. Também era muito difícil pra mim frequentar espaços como museus. Não pela falta de gratuidade, mas pela insegurança de entrar nesses lugares e não me sentir bem recepcionada.
Eu desenhava muito nos intervalos do trabalho pra conseguir desanuviar e desestressar um pouco. Foi quando comecei a desenhar cada vez mais e a pensar que gostava muito daquilo e queria trabalhar com aquilo.
Também comecei a frequentar museus. Eu trabalhava na região da Avenida Paulista, então pesquisava os dias gratuitos pra conseguir conhecer esses espaços. Lembro de encontrar no MASP uma obra da artista Maria Auxiliadora, e aquilo mudou minha visão de mundo. Foi quando entendi que existiam pessoas reconhecidas através da arte por falarem sobre a própria vida, inclusive dentro de contextos mais oprimidos, de periferia e tudo mais. Conheci também Carolina Maria de Jesus e Solano Trindade. Essas pessoas e esses artistas foram abrindo minha cabeça e me dando segurança, orgulho e pertencimento para começar a contar minha própria história. Eu entendi que, assim como estava interessada na vida e na obra deles, outras pessoas também poderiam se interessar pela minha.
Antes da pandemia, eu já tinha decidido que iria me demitir daquele trabalho. Estava juntando dinheiro porque queria viver de arte. Em janeiro de 2020, me demiti sem nem saber que uma pandemia estava por vir. Quando a pandemia chegou, eu já estava tentando ganhar a vida com arte, fazendo encomendas de quadros e tudo mais. Durante aquele ano, basicamente me sustentei com o dinheiro que tinha juntado e com as encomendas que as pessoas fizeram pra mim.
Nesse período, eu já tinha tido contato com o graffiti, mas me sentia muito insegura e não queria ir pra rua. Tinha medo de uma coisa totalmente nova, da insegurança, da marginalidade que o graffiti traz e de ser mulher na rua. Enfim, eram muitos medos. Mas, conforme fui pintando quadros e me descobrindo dentro da arte, comecei a me sentir cada vez mais limitada pela estrutura da tela e do papel. Eu sentia muita vontade de ir pra rua, de ter essa conexão com a rua mesmo. Acho que isso foi o que mais me conectou aos artistas que citei anteriormente: o fato de serem tão ligados à vivência, ao cotidiano e à rua.
A rua como espaço vivo: cidade e experimentação
E, quando digo rua, não estou falando só de calçada e asfalto. Estou falando num sentido muito mais amplo, né? Rua são muitas vivências juntas. É essa instabilidade, essa incerteza, essa vida acontecendo entre esquinas e encruzilhadas. É você colocar o pé pra fora com uma intenção, mas não saber o que vai acontecer, porque não existe só você naquele ambiente, sabe? Num ambiente mais controlado, como um ateliê ou dentro de casa pintando um quadro, você tem muito controle sobre o que está produzindo. Na rua, não.
Quando você está na rua, fica sujeito à aprovação e à desaprovação ao vivo. Está sujeito até à violência de pessoas que não gostam ou não acham aquilo certo. Mas, principalmente, tem a possibilidade de firmar e reivindicar o seu direito à cidade. Acho que esse é um dos maiores pilares do graffiti: abdicar dessa ideia de propriedade privada, sabe? Dessa ideia de que algo pertence a alguém. O graffiti traz essa marginalidade de lembrar que a gente não tem nada. Quando a gente morre, não leva nada daqui.
Acho que existe até uma ironia, uma brincadeira sobre o que é seu e o que é nosso. Porque é isso: a cidade também me pertence. A cidade também pertence às pessoas que não têm moradia própria, que não têm propriedade privada. A gente transita pelos ambientes e eles também nos pertencem, sacou?
Passei por uma fase muito ligada ao graffiti e, hoje, estou experimentando outras técnicas. Me descobri muito na fotografia e no audiovisual.
O cenário do audiovisual é muito caro e restrito, então tento experimentar com as ferramentas que tenho. Hoje faço muita coisa com o celular e estou juntando dinheiro para comprar equipamentos e me aprimorar nessa técnica, até porque é algo que também me dá dinheiro.
Acho que uma coisa que me define como pessoa e como artista é que, em tudo com que me conectei e por que me interessei, fiz com o que tinha. Não fiquei esperando o momento exato, porque a vontade de me expressar através daquela técnica sempre foi muito maior do que a limitação, sabe? Hoje trabalho majoritariamente com comunicação: marketing, audiovisual e design. Mas a arte anda sempre comigo. Inclusive, só faço esse tipo de trabalho por causa das minhas trajetórias anteriores, das referências que trago da vida e do olhar que construí.
A arte não é mais minha principal fonte de renda, principalmente porque é muito ingrato capitalizar uma coisa tão pura. Percebi isso e fiz a escolha de não depender financeiramente dela. Eu estava ficando muito doida tentando custear minha vida e minhas contas através de uma coisa que amo muito, mas que, infelizmente, não é valorizada financeiramente. Até porque as pessoas que mais consomem meu trabalho hoje são pessoas da periferia. E não é que elas não me valorizem. Acho que existem outras prioridades de investimento quando a gente vive num cenário tão desigual.
Alimento para produzir: do externo pro interno
O que te inspira diariamente?
O que me inspira diariamente são as vivências mesmo, a própria rua. Essa possibilidade de conversar com as pessoas e estar em ambientes muito diferentes. Hoje, por trabalhar com comunicação, tenho acesso a pessoas de áreas muito diferentes. Quando vou fazer um trabalho, preciso chegar perto, entender como o negócio funciona, o que a pessoa faz, pra quem faz e qual é a trajetória de vida de quem está por trás.
Eu gosto de fazer uma comunicação mais humanizada, trazendo perspectivas pessoais sobre a marca, o projeto, a pessoa, enfim. É uma forma que escolhi de trabalhar e que agrega muito ao meu fazer artístico no dia a dia, e vice-versa. Minha visão artística também agrega muito ao meu trabalho. Vou conhecendo outros cenários, possibilidades e universos sem necessariamente precisar me tornar especialista naquilo. Entro dentro daquele universo de ouvido aberto, sabe? Querendo entender a pessoa, o projeto e tudo mais.
Isso acontece no trabalho, mas também no meu dia a dia. Eu gosto de conversar com as pessoas e gosto de ouvir mais do que falar. Acho que esse é um dos meus principais pilares. Gosto de me colocar à disposição pra ouvir, principalmente desabafos. Algumas pessoas falam que eu deveria ser psicóloga ou que sou a psicóloga delas, porque talvez eu tenha essa paciência. Mas não é só paciência, é interesse. Eu realmente gosto de ouvir.Todos os artistas que me inspiram fazem isso principalmente pela história e pela trajetória de vida. Mais do que a obra ou o trabalho final, é isso que me interessa na arte, sabe? Entender quem fez, quando fez, como fez e em qual momento da vida e da história aquilo foi criado.
Principalmente numa era de inteligência artificial como a que a gente vive hoje, ter contato com pessoas, histórias humanas, ambiguidades e essa coisa caótica é o que mais me inspira. É também o que mais peço pra espiritualidade: sabedoria pra estar no mundo, ouvir de forma atenta e permanecer de olhos bem abertos ou às vezes, bem fechados também, pra entrar em contato comigo mesma. Mas sempre valorizando essa coisa que é muito nossa e que nenhuma inteligência artificial consegue encapsular, sabe? Essa coisa humana, ambígua, caótica e que nem sempre faz sentido.
Como você lida com as pressões do sistema?
Eu lido com as pressões do sistema me conectando e me fortalecendo junto de pessoas que são meus pares e que, como eu, tentam pensar e agir de forma antissistêmica na medida do possível, né? Porque a gente vive dentro do sistema capitalista. Gosto de estar envolvida em projetos socioculturais que trabalham pela emancipação de nós enquanto pessoas periféricas, que historicamente não têm tanto acesso a recursos financeiros, educação, informação e tudo aquilo que amplia a dignidade do ser humano.
Eu sei que não dá simplesmente pra fugir do sistema capitalista, porque a gente precisa trabalhar e eu também tenho sonhos pra realizar. Mas gosto de estar conectada, fazendo alguma coisa, conversando e discutindo com pessoas que pensam dessa forma também, sabe? Isso me enche de esperança, porque sei que essas pessoas também estão construindo esperança para que outras consigam se manter esperançosas ou passem a ter esperança por causa disso.
Quais seus projetos, desejos, planos pro futuro?
Meus projetos, desejos e planos pro futuro são, sinceramente, ter tempo, sanidade mental, saúde e condições financeiras pra conseguir experimentar cada vez mais e conhecer lugares novos.
Acho que esse sempre foi meu sonho de infância. Quando eu era criança, não sabia com o que queria trabalhar, mas sabia que queria muito viajar e conhecer outros lugares do mundo, sabe? Isso foi uma coisa que me moveu muito e me move até hoje. Assim como eu falei, gosto de conhecer, ouvir e estar sempre atenta. Sempre fui muito curiosa. Então quero ter condições pra continuar sendo essa pessoa curiosa, interessada pela vida e conhecendo lugares, pessoas, histórias e culturas que ainda não conheço ou que conheço só de longe.
Basicamente, esse é o maior plano da minha vida hoje, com meus 29 aninhos. Quero conseguir ser uma pessoa plena não pelo que faço, porque o que eu faço está sempre mudando, mas pelo que eu sou, sabe? Tenho entendido que cada um de nós tem um valor muito único e muito grande, e isso precisa ser reconhecido primeiro por nós mesmos. Se a gente não se enxerga como uma pessoa única dentro da própria história, ninguém vai enxergar.
Quero me tornar cada vez mais confiante, feliz, saudável em todos os aspectos possíveis e também mais sábia, pra continuar ocupando o mundo da melhor forma possível. Quero ser útil pra essa emancipação e pra construção de uma consciência coletiva sobre a dignidade das pessoas faveladas. E é isso: fazendo arte, fazendo comunicação… ninguém sabe o dia de amanhã, né? Mas quero me sentir livre pra criar e também ser impactada pela criação de outras pessoas. Não necessariamente pelo que eu faço ou pela arte que produzo, mas pela minha vivência no mundo mesmo. Quero poder viver.
Agradecemos a Cultura&Informação AMANDA AMX! @amx.amanda










Também é fundadora da Aztro, agência por onde estrutura projetos de comunicação, identidade e conteúdo, conectando sua visão autoral à estratégia e à criação coletiva. Busca estar sempre envolvida em projetos e iniciativas socioculturais, porque acredita na força do trabalho em rede e gosta de criar ao lado de outros talentos e idealizadores que também sonham com mais dignidade para as periferias e reconhecem a potência desses territórios para contar suas próprias histórias.
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