A Dignidade da Arte

Tenho um livrinho de bolso que me acompanha diariamente. “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano

Luana Melinka

9/18/20262 min read

A dignidade da ARTE...

Tenho um livrinho de bolso que me acompanha diariamente. “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano. Ele funciona como um oráculo: cada página pode ser uma mensagem para te matar ou te fazer viver - assim como a vida que diariamente nos confronta com situações de quase-morte (física, espiritual, mental) e com momentos de morrer de alegria. Pois a alegria nos mata de uma sensação deliciosamente passageira, quase ilusória. Não é culpa minha ser tão melancólica assim, é que ser artista em tempos de ódio nos corrói as entranhas como soda cáustica.

Pois bem… lendo meu livrinho, fechei os olhos e sorteei as páginas como se fosse a última leitura de minha vida. BOOM! A revelação emblemática de toda uma carreira:


“Eu escrevo para os que não podem me ler. Os de baixo, os que esperam há séculos na fila da história, não sabem ler ou não tem com o quê. Quando chega o desânimo, me faz bem recordar uma lição de dignidade da arte que recebi há anos, num teatro de Assis, na Itália. Helena e eu tínhamos ido ver um espetáculo de pantomima, e não havia ninguém. Ela e eu éramos os únicos espectadores. Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria. E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite como se estivessem vivendo a glória de uma estréia com lotação esgotada. Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.


Nossos aplausos ressoaram na solidão da sala. Nós aplaudimos até esfolar as mãos.”

Eu, dramática que sou, já remontei todas vezes que senti que ninguém me ouvia. Todas aquelas noites em claro em que me envergonhei da nerdolisse verbal ao qual meu RAP é dedicado. Será que alguém gosta dessa merda? Será que tem futuro? Respira fundo menina. Para cada RAP escrito uma alma que se salva - a nossa própria. E assim segui minha viagem de metrô, olhando fixamente para as páginas do livrinho. A vida é mesmo um oráculo… e cada dia é um sorteio. Qual página vamos abrir em seguida? Não desista. Alguém vai esfolar as mãos de tanto aplaudir, ainda que seja um único. Para que eu seja, você é. E se somos dois, podemos ser um. Nunca estaremos sozinhos.