Vozes da Quebrada: Um bate-papo inspirador com Gisele Alexandre

Crescida no Capão Redondo nos anos 90 e vivenciando o movimento hip-hop, Gisele explica que tudo o que idealiza parte de suas vivências.

Gisele Alexandre

10/5/202610 min read

Bater papo com pessoas que fazem as nossas periferias se movimentarem é sempre algo contagiante. Parece que sobra energia e falta tempo no dia destas pessoas. Gisele Alexandre é essa personagem que nos coloca para refletir sobre nossas ações dentro dos bairros, sendo jornalista, produtora cultural e educadora, sabe da sua importância e reconhece suas dificuldades para atuar num cenário que é desafiador.

Gisele, que maneira as suas raízes e as vivências na periferia do Capão Redondo influenciam na forma como você constrói projetos culturais? E atualmente, quais são seus principais projetos?

Primeiro eu já quero agradecer ao portal Skate&Cores por me dar esse espaço, para contar um pouco da minha história. E aí, vamos lá, respondendo à pergunta, eu posso te dizer que, que as minhas vivências, fizeram com que eu chegasse, até aqui. Então, tudo o que eu faço e tudo o que eu idealizo, parte dessa minha vivência.

Desde pensar o jornalismo periférico, que é a minha principal causa e onde eu atuo há mais de 20 anos, pensando em narrativas que possam ser compreendidas da melhor maneira possível para quem mora na periferia, até a concepção de eventos, as pessoas que vão curtir os nossos rolês, mas também pensando no protagonismo.

Então, eu acho que como uma mulher que cresceu no Capão Redondo, nos anos 90, que viveu o início dos anos, dos anos 2000 dentro do movimento hip-hop, tudo isso que eu vi acontecendo desde o movimento social, o movimento por moradia, as organizações sociais que trabalham na defesa de direitos humanos, tudo isso me fez pensar e trabalhar em prol da minha comunidade.

E aí, os meus principais projetos hoje - Eu posso dizer quatro:

O principal projeto que eu tenho me dedicado, enfim, que eu tenho pensado, que eu quero muito que dê certo é a Associação Casa Periférica, é a primeira vez que eu consigo, de fato, colocar um projeto, construir, um projeto de forma coletiva, com outras mulheres, porque os outros projetos que eu desempenho, muitos nasceram da minha cabeça e depois eu fui chamando gente para somar comigo.

A Associação Casa Periférica já é um espaço construído por nós mulheres que compomos essa associação. Além disso, a gente tem o Clube de Criadores Educapão, que é um programa de formação educomunicativa, que eu tenho muito orgulho, que realizo há bastante tempo, há quase 10 anos no território, que eu faço hoje pode inspirar os jovens que vão continuar fazendo esse trabalho amanhã.

Tenho o CultCom, para mim hoje já é um movimento cultural, para além de um evento pontual, ele é um movimento mesmo de cultura, tem como principal missão dar protagonismo para os nossos artistas, como eu falei antes. Tratar o artista como artista, para ele entender que ele é uma potência e precisa ser respeitado nesse lugar de potência.

E o Manda Notícias, um projeto que ampliou a minha visibilidade e me deu a possibilidade de chegar nesses outros projetos de forma mais sólida, mas que é um projeto que está parado, vamos dizer assim.

Hoje ele é mais um laboratório de jornalismo para os jovens do EduCapão, do que de fato um veículo de mídia como eu gostaria que ele fosse. Isso porque a gente não tem uma política pública sólida para estruturar de fato, o jornalismo de quebrada. Então, ele acaba ficando ali como um apoio dos outros projetos.

2- O Manda Notícias nasceu no Capão Redondo com um compromisso muito forte com a Zona Sul de São Paulo. Como a vivência e a energia desse território moldam a linha editorial e o propósito de vocês todos os dias?

O Manda Notícias nasce da minha atuação no Capão Redondo. Eu acho que mais do que nascer no território, ele nasce da minha vivência nesse território. E aí, eu já fazia jornalismo periférico antes do Manda Notícias, ele é meio que foi a maneira como eu consegui trazer para dentro da minha atuação, do meu protagonismo, é uma linha editorial que conversasse diretamente com os meus interesses. Então, o “projeto”, nasceu com o compromisso de levar informação sobre a pandemia e também de combater as fake news.

Ele surge em 2020, e depois disso, eu trago dentro da linha editorial, o jornalismo cultural, que é de onde eu começo. De onde eu começo, é, lá no início dos anos 2000. Então, a minha linha, ela parte da minha vivência e da minha do meu reconhecimento do território, parte também do respeito que eu tenho por todos, por todas as pessoas que estão na luta diária, para fazer com que esse território resista. E aí, eu estou falando desde as lideranças comunitárias, todos os professores, todas as pessoas que trabalham pela educação pública, os trabalhadores da saúde. Então, quando eu penso o Manda Notícias, eu penso nessas pessoas que fazem com que o território sobreviva. Independente da de todas as adversidades e da desigualdade social, penso nesses trabalhadores, que atuando para que a gente tenha o minimamente saúde e bem-estar. Então ele surge disso, assim, dessa consolidação da minha atuação enquanto jornalista de quebrada e também desse meu respeito e cuidado com os trabalhadores do território.

3 – Com todas ações que você realiza como produtora, você sabe o quanto a questão de financiamento é parte crucial para existir, sendo contemplada pelo Programa de Fomento à Cultura da Periferia, qual é o impacto real que vocês percebem no fortalecimento da cena artística local quando o recurso e a visibilidade chegam de fato na base?

Eu acho fundamental as políticas públicas voltadas ao fomento à cultura. Elas são essenciais para garantia de direitos humanos, inclusive, porque pra mim a cultura é um instrumento de transformação transversal. Então a gente consegue, a partir da cultura, tocar em pontos, em pautas diversas. Apoio de políticas públicas para projetos e iniciativas de cultura é fundamental para a democratização do país, para que exista acessos e reduza a desigualdade social.

Falando especificamente do Programa de Fomento à Cultura da Periferia, é uma das políticas mais efetivas, não só por conta do valor. Que é um valor expressivo, mas também por toda a facilidade do edital em si. Um recurso legal, superando os R$ 400.000 por projeto. E ele não é um edital muito complexo de ser de ser elaborado.

Então eu considero muito muito importante mesmo, porque atuar na periferia, muitas vezes não tem acesso a ferramentas estratégicas, de métricas e não tem às vezes conhecimento que as grandes produtoras, da ponte pra lá têm. A gente consegue elaborar projetos a partir do nosso conhecimento prático mesmo, eu acho uma política pública muito importante.

E isso tem uma explicação, né? Ela é uma política pública que foi criada pela base. Ela foi criada por meio de uma articulação cidadã comunitária dos agentes de cultura. Isso prova que é importante que a gente faça a mobilização social mesmo. É importante que a gente paute políticas públicas e que a gente incida politicamente. Que a gente fale com vereadores, fale com deputados sobre as nossas necessidades. Porque a partir do momento que a gente se envolve na criação, na elaboração dessas políticas, elas se tornam mais acessíveis pra gente, né? É a gente fazendo pra gente mesmo. Então elas são fundamentais.

Pegamos o Fomento à Cultura da Periferia, 7ª edição, entre 2023 e 2024, foi fundamental para eu estruturar os projetos principais: Manda Notícias, Clube de Criadores e o CultCom, eles nascem do Fomento. Eles nascem não, eles ganham relevância dentro do Fomento à Cultura da Periferia. A gente consegue ter visibilidade a partir desse recurso.

Então todos os projetos já existiam, tirando o CultCom, eu consegui pensar nele ao mesmo tempo que eu executava o Fomento da Cultura da Periferia, hoje ele tem uma relevância grande é um projeto que a gente consegue fomentos só para ele.

Conseguimos um ProAC recentemente. A partir do momento que acessamos esse recurso, consegue dobrar esse impacto, triplicar esse impacto. Consegue alcançar outros públicos, consegue alcançar outros beneficiários, então é fundamental, para nossa estruturação enquanto coletividade, mas é fundamental também para que consiga romper a bolha e chegar em outras pessoas levando o impacto que precisamos.

4 – Além do Manda Notícias, você idealizou o Clube de Criadores Educação, o projeto visa a formação da juventude periférica na temática da comunicação e direitos humanos. Como funciona estas formações (faixa etária, duração e certificação), e qual o real impacto deste trabalho?

O Clube de Criadores EduCapão, ele é um projeto que eu começo a pensar muito impulsionada também pela realidade do território. Então lá em 2014, 2015, junto com a Michelinne Farias e com o Bruno Capão, que são dois líderes comunitários na época, fundadores juntos. Eles fundaram a Nave Capão, então eles me convidam para conversar com as crianças sobre mídia na ONG, crianças com muitas questões de como as notícias, principalmente dos jornais da manhã, sensacionalistas a maioria deles, como aquilo batia para elas, assim me chamaram para eu poder conversar, escutar e conversar com as crianças.

E eu já tinha um trabalho de educação midiática no território, mas com adultos. E aí quando cheguei para falar com as crianças, entendo que o que eles precisavam era primeiro se entender enquanto pessoas periféricas. Enquanto jovens periféricos, enquanto pessoas que estavam em situação diferente de uma parte da população. Então mostrar para elas a desigualdade social, mostrar para elas a importância das histórias do território, fazia sentido para mim antes até de falar sobre jornalismo de fato.

Então o Clube de Criadores EduCapão ele nasce desse meu entendimento. Para jovens de 14 a 25 anos, fazemos uma turma por ano, normalmente são 25 jovens. Essa metodologia tem três pilares: primeiro pilar sobre Ancestralidade e faz com que esse jovem tenha um mergulho profundo na sua própria história, no autoconhecimento e que ele se reconheça dentro desse ecossistema familiar. Depois Referências, do Capão Redondo e da região, então fala sobre espaços culturais, enfim, apresenta esse território para esse jovem. E, a partir disso, esses dois módulos são mais reflexivos, faz com que o eles pensem sobre a própria existência e sobre a família.

O terceiro pilar que é a Produção Cultural, então a produção de conhecimento que pode ser feita a partir de produções jornalísticas mesmo. Nós já fizemos uma revista, várias reportagens, reportagens online para o nosso site e produções culturais. Então na última edição tivemos um desfile de moda com temática que também envolveu teatro e produções de audiovisual com minidocumentários.

Temos um impacto muito grande de autonomia mesmo, do pai falar para a gente que o jovem não saía de casa, não sabia pegar um ônibus e a partir do momento que ele chega no EduCapão, conseguimos fazer com que esse jovem tenha mais segurança para conversar, para dialogar, para ouvir, ele tem mais atenção. Então é um projeto bem transformador assim e de alto impacto... Jovens que criaram os seus próprios coletivos estão hoje se formando em jornalismo, alguns que viraram artistas...

6 – Neste momento você enquanto produtora também se tornou professora e leciona no Instituto Federal do Jardim Ângela, como está sendo esta experiência no primeiro equipamento de ensino superior público “da ponte pra cá”.

Minha atuação no Instituto Federal do Campus Jardim Ângela é muito importante para mim, assim. O ano passado 2025 eu fui convidada para dar um curso curto de comunicação e mídias. E que para mim já foi um grande presente, entender que aquilo que eu fazia, né, dentro da educação informal há bastante tempo, dentro dos meus projetos de educação midiática, também poderia ser um trabalho da educação formal, do Instituto Federal, que tem toda uma história e uma relevância importante para a educação brasileira.

E aí, assim que finalizou esse curso, a diretoria do Instituto me convidou para preparar junto com eles uma formação de agentes populares de cultura. É a primeira formação presencial que a gente sabe. Então já existia um projeto político-pedagógico voltado para esse curso, mas era um curso online que tinha, que não era muito territorial. Ele não olhava muito as questões territoriais. Então a gente pega esse projeto e repensa ele a partir de dinâmicas do território.

A diretoria do Instituto me deu muita liberdade assim para propor, para fazer propostas de como eu achava que deveria ser incluído num curso de 200 horas. Então são quase 70 aulas, todas as aulas são pensadas por mim, executadas por mim. Então crio uma metodologia que une o conceito e as referências bibliográficas que são importantes para essas temáticas, mas também trago o acolhimento e questões da educação popular que eu já tenho de base.

E está sendo um processo muito... muito bonito, muito transformador. Com certeza vai gerar aí agentes populares muito engajados e muito conscientes do papel deles no território.

7 – Trabalhar como produtora cultural na cena periférica, exige uma dedicação especifica e podemos dizer que é um trabalho que rema contra a maré. Como se manter firme, gerar renda e ter saúde mental com tantos obstáculos?

A produção cultural na periferia, ela exige da gente, não só sabedoria e dedicação, ela exige controle emocional, para lidar com frustrações, sabe? Muitas vezes a gente trabalha, trabalha, trabalha, e olha na conta e a conta está zerada. Isso acontece comigo com frequência. Hoje tenho a consciência de que eu não tenho opção de desistir, eu não sei fazer outra coisa a não ser produzir cultura e trabalhar com comunicação.

Para a gente que já está nessa luta há bastante tempo, é importante ser muito honesto com os próximos, com as pessoas que estão se formando e que virão aí trabalhar com isso. Porque é um trabalho que exige amor, que exige propósito. Você não vai fazer aquilo pensando em ficar rico. Se você está nessa,você está errado. Tudo o que eu faço, toda vez que eu faço, eu penso no outro, como vai ser aquilo para o outro. Como é que eu vou transformar a vida do outro a partir daquilo que eu estou fazendo? Muitas vezes a transformação ela vem de forma, diferente daquilo que a gente está imaginando, mas o nosso propósito sempre é atingido.

Os obstáculos são milhares, ter muita flexibilidade, muita resiliência, principalmente, para lidar com tudo o que acontece. E a maturidade vai nos dando, sabedoria para ter também equilíbrio e saúde mental. Para lidar com frustrações e com escassez, que eu acho que é isso que a gente sempre teve na periferia.

Mas a gente segue na luta, é isso que eu tenho feito em todos os projetos que eu faço, seja na ponta, dando aula ali, fazendo com que os alunos entendam, a importância de refletir... desde isso até pensar, na criação de novas políticas públicas que vão apoiar o nosso trabalho, e talvez não o meu, mas os que virão depois de mim."

Equipe Skate&Cores agradece a toda cultura e informação Gisele Alexandre @gialexandre.oficial 💜

Gi, para os mais íntimos, respondeu nossas perguntas e explicou sua trajetória, diálogo permeado de reflexões...