Felipe Ribeiro
Das quebradas do Rio à estrada do rock brasileiro!
Luana Melinka
9/2/20267 min read

Nesta entrevista, Felipe falou sobre origem, música, profissionalização, estrada e sobrevivência. O papo gira em torno do que o Skate&Cores sempre fala: construir um caminho quando as oportunidades são escassas e, às vezes, a arte deixa de ser apenas uma escolha e se torna a própria possibilidade de seguir em frente.
1. Conta pra gente de onde vem o TREVA LVCE?
TREVA LVCE nasceu em 2022 para tirar do papel a vontade de fazer som represada na pandemia. Da escuridão daquele período de pausa no mundo da música surgiu a TREVA, que agora evolui para TREVA LVCE, simbolizando a luz que permaneceu: a capacidade de criar, recomeçar e encontrar sentido. Guiada pelo folk, blues e punk rock, a banda faz música com aquilo que é profundamente humano; trazendo a energia de Social Distortion, Bad Religion e CPM 22, a sensibilidade de Johnny Cash, Chuck Ragan e City and Colour desembocando em TREVA LVCE: intenso, melódico e emocional.
2. Como a música se tornou seu trabalho?
É difícil dizer isso com precisão pelo simples fato de que eu nunca planejei exatamente viver de música. Digo, a música nunca foi parte de um planejamento profissional na minha vida. Ela simplesmente aconteceu porque eu comecei a tocar bateria aos 15 anos de idade sem a menor pretensão, aos 18 me vi tocando em uma banda com meus amigos de bairro, essa banda durou 17 anos e durante esse processo, ela, a banda, foi se profissionalizando de uma forma muito natural e espontânea. Assinamos com gravadoras, lançamos álbuns e DVD, fizemos centenas de shows com dezenas de turnês por todo Brasil, muitas turnês pela América do Sul e pela Europa, e dessa forma, rodamos por quase todas as partes do mundo. E, obviamente, no meio disso tudo eu comecei a entender que aquilo já não era apenas um passa tempo, uma brincadeira de final de semana, mas sim, já representava algo muito maior e que exigia responsabilidade e muita dedicação. Do ponto onde eu estava não haveria mais volta. Então, eu segui o meu coração fazendo aquilo que eu amava e a coisa simplesmente aconteceu.
3. Quem era o Felipe aos 15 anos de idade? Como você vê o Felipe de hoje?
O Felipe dos 15 anos de idade era um adolescente que morava na periferia do Rio de Janeiro, mais especificamente entre Pavuna e São João de Meriti em meio a favelas, morros, ruas de terra, vala a céu aberta, muita pobreza, violência e, por incrível que pareça, também em meio a muita música e amor das pessoas próximas. Sendo bem honesto, eu não tinha muito planejamento de nada na minha vida. Eu só tinha ódio e muita desesperança em relação a tudo. E foi aí que a música e a leitura me salvaram. Porque foi justamente nesse periodo em que eu de fato comecei ouvir cada vez mais músicas, procurar mais informação através das letras das canções que eu me identificava e dos livros que eu procurava pra ler. E foi assim que eu comecei a canalizar meus sonhos, minhas frustrações, meus sentimentos pras letras e músicas que eu viria a compor a partir dos 16, 17 anos. Posso dizer que a música e os livros deram um norte pra minha vida.
Eu diria que hoje eu sou eu ainda mantenho as raízes bem fortes dentro daquilo que eu acredito e que se estruturaram em mim quando eu era mais novo, porém, consigo desenvolver tudo com mais maturidade, mais discernimento e serenidade. A experiência ajuda muito. Nós nos tornamos menos intempestivos. Mas é importante cuidar sempre pra que essa maturidade não se transforme em apatia e acabe fazendo com que você perca o rumo daquilo que você acredita. Então, nesse caso, ainda que mais razoável em muitos fatores, eu ainda tenho o Felipe de 15 anos de idade ainda muito vivo dentro de mim.
4. Haviam oportunidades pra você se profissionalizar? Ou foi tudo na raça?
Eu acho que naquela época não existia oportunidade pra ninguém que vinha da onde eu vim. Essa é a verdade. Pouquíssimas pessoas que conviviam comigo aquela epoca tiveram algum deslocamento social, cultural ou mesmo profissional significativos. Nesse ponto eu acredito que eu dei muita sorte, porque o meu envolvimento com a música me levou a lugares onde eu jamais imaginei ir. Até porque, pra ser sincero, quando eu era adolescente não haviam referências de pessoas que tivessem conquistado algo diferente daquele padrão que já existia por ali ou algum caminho muito melhor em suas vidas. Então posso dizer com toda certeza que tudo que eu passei e tudo que eu aprendi obrigatoriamente teve que ser na raça. Não havia outro caminho. A arte salva, e no meu caso eu acho que a música me salvou.
5. Como é trabalhar na estrada com o Ratos de Porão? Você consegue ter uma rotina?
Poisé, então, quando sai do Rio de Janeiro e vim morar em São Paulo, eu ainda tocava bateria na minha antiga banda. Logo na sequência após a minha mudança a banda teve os seu fim e então eu não sabia muito bem o que fazer. Fiquei sem chão por um certo tempo. Daí, uma grade amiga chamada Erica, que era produtora do Ratos de Porão na época, me chamou pra trabalhar de roadie na banda. Eu não queria muito, tinha um certo receio pelo fato de eu nunca ter tido essa experiência. Mas fui. Pois bem, se passaram dez anos e eu estou com eles até hoje. Fiquei um tempinho como roadie e logo depois assumi a produção da banda. Já a algum tempo eu sou no RDP o que fora do Brasil se chama de Tour Manager. E é algo que eu aprendi e gosto muito de fazer. É corrria, muita responsabilidade cuidar dos interesses da banda em todos os shows, em várias cidades, países, em várias situações e condições diferentes, mas confesso que eu lido bem com isso. A banda confia plenamente em mim e no meu trabalho, e eu acho que cresci muito assimilando toda essa experiência. Eu agradeço muito a Erica lá no começo, e também a banda por terem acreditado em mim e na minha capacidade. Passados muitos anos, mesmo eu trabalhando em produção de outros artistas nacionais e internacionais de estilos variados e dos mais diferentes portes, pra agências produtoras, na área arrisca, técnica, audiovisual, etc… Eu sempre me mantive fixo no Ratos de Porão.
6. Qual elemento foi fundamental pra você não desistir desse corre todo?
Olha, pra ser bem honesto, o elemento fundamental foi simplesmente não ter outro caminho (risos). Eu costumo brincar dizendo que a única parte fácil em ser um fudido é o fato de não existir a problemática da administração de possibilidades. Isso se dá porque você, quando é um fudido, não tem variedade de opções. Se você está em uma direção, então você se mantém nela, porque não há mais pra onde ir. Sendo assim, pra mim, desistir nunca foi uma opção.
7. Pra fechar, o que você diria para quem está ingressando no mercado musical de maneira independente?
Olha, eu poderia dar uma de coach ridículo e falar aqui muita coisa clichê do tipo “Acredite em vc mesmo”, “Faça o que está no seu coração”, etc… Mas a verdade é que viver de arte no Brasil é uma coisa muito difícil e é pra poucos. Eu sempre digo, brincando, claro, mas com uma boa dose de verdade, que eu sou o “errado” no meio em que eu me inseri. Pobre e preto são exceções que fogem a regra nesse meio artístico. Essa é a verdade. Então, eu acho que pra além das frases de efeito, (sim, é claro que é importante acreditar no seu próprio potencial. Sim, é claro que é necessário perseverar. Sim, é claro que é importante seguir o seu coração, etc…), mas eu sempre aconselho a quem me pergunta que, caso seja possível, tenha sempre um plano B na sua vida. Tente estudar, aprender coisas diferentes, viver experiências diversas, porque de duas, uma: Ou isso vai ser muito importante na produção da sua arte, ou, caso a sua arte não aconteça profissionalmente, você consegue levar esse aprendizado pra outras áreas da vida social e mesmo em outros ambientes profissionais. Ou seja, basicamente, estou falando pra fazer tudo que eu não fiz (risos).
Para conhecer mais:

Felipe Ribeiro, vocalista da banda TREVA LVCE e tour manager do Ratos de Porão, construiu sua caminhada musical na raça - assim como muitos de nós artistas. Criado entre a Pavuna e São João de Meriti, na periferia do Rio de Janeiro, começou a tocar bateria ainda na adolescência. Encontrou na música e na literatura uma forma de transformar em arte as inquietações, frustrações e a falta de perspectivas do entorno.
Através do seu trampo viveu intensamente a experiência de estar em uma banda, viajar, gravar e circular por diferentes países. Mais tarde, já em São Paulo, conheceu o outro lado da indústria musical: começou como roadie do Ratos de Porão. Anos depois, assumiu uma função conhecida como “tour manager”, assumindo a responsabilidade de resolver grande parte dos B.O’s dos bastidores que o público não imagina.
Paralelamente, Felipe segue criando. A sua banda TREVA LVCE, projeto que mistura influências do folk, blues e punk rock (e muito mais) entra em nova fase com o lançamento do single “Recomeço”. O clipe foi gravado em um pico abandonado, com uma estética DIY (do it yourself, faça você mesmo!) - onde a movimentação da câmera trás a estética crua da selva de pedra. Uma das cenas que mais curtimos é o posto do baterista montado em meio aos throw-ups, quem conhece e gosta vai pirar tentando decifrar quem são os escritores urbanos. A banda é formada por ele na voz e guitarra; Eduardo Moratori no baixo; Felipe Skid na guitarra e backing vocal e Gian Coppola na bateria.






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