JAZZ: Onde a moda encontra o skate

Conheça Jessica Campos, mais conhecida como Jazz, mulher periférica empreendedora que após anos na estrada, abriu sua loja de alfaiataria em bairro nobre da cidade.

Melinka

11/4/20265 min read

Conheça Jessica Campos, mais conhecida como Jazz, mulher periférica empreendedora que após anos na estrada, abriu sua loja de alfaiataria em bairro nobre da cidade. Cria do Alvarenga, zona sul, transitou entre o ABC e zona leste até retornar para onde tudo começou,

@jazzngz @elasjazz

O início de tudo

A minha avó é costureira e tudo veio dela. Brava pra caramba, mas uma mulher incrível. É a minha rainha. Comecei a costurar com sete anos de idade porque queria fazer as minhas roupas e as roupinhas das minhas bonecas. Ela me deu uma máquina de costura de presente e foi nela que comecei a costurar, bordar e fazer roupa de boneca. Eu falo para todo mundo que comecei a empreender com sete anos, porque eu já levava roupinha de boneca para vender na escola. Também fazia customizações nas minhas próprias roupas. A ideia da marca Jazz vem justamente daí. Minha avó costurava ouvindo jazz. Foi costurando com ela que conheci esse universo. Por isso o nome da minha marca é Jazz . Minha mãe e minha avó ganhavam quarenta centavos para fazer uma bermuda. Faziam coletes salva-vidas com dezoito bolsos e recebiam cinquenta centavos por peça. Foi a forma que elas encontraram de colocar comida dentro de casa. 

A Jazz, a realização de um sonho e o apoio coletivo

A Jazz é uma marca de moda autoral. Eu produzo, desenho e modelo todas as peças, mas tenho ajuda de muitas mulheres periféricas. Eu gosto sempre de lembrar disso, porque as pessoas olham para essa loja e nem imaginam que tudo isso veio da periferia. A periferia tem muita coisa boa. Está cheia de riqueza. A gente só precisa olhar. Eu também divido esse espaço com a marca Carmy, de uma amiga minha, que vende essas peças maravilhosas banhadas a ouro e prata.

A Jéssica começou a se desenvolver mais aqui na Zona Sul, porque lá no ABC é um lugar mais fechado. Já são 12 anos de marca e agora veio a primeira loja da minha vida. Mas tem muitas coisas que acontecem que as pessoas não veem por fora. Esse espaço faz parte desse sonho de doze anos. Acho que todo empreendedor sonha em ter um espaço físico e, finalmente, o meu aconteceu. E aí entra uma questão muito louca: não aconteceu na hora que eu queria. Uma das coisas que estou aprendendo na vida é que as coisas acontecem no tempo em que precisam acontecer, e não no tempo que a gente quer. Às vezes a gente acha que está preparado, mas ainda não está. Quando tudo isso aconteceu eu pensei: "Gente, eu não estou pronta." E o meu marido falou: "Gata, você está pronta há doze anos. Isso aqui é seu. Você merece isso. Chora dois minutinhos, mas não tenha medo."Isso me fez perceber o quanto existem pessoas caminhando junto comigo e me levantando ao longo dessa trajetória

Mulheres, costura propósito social

Desde que comecei a Jazz, a minha ideia sempre foi não explorar mulheres. Queria que elas tivessem dignidade, que pudessem viver da costura, que não dependessem de marido e tivessem a própria vida, assim como eu. Muitas mulheres que passaram pela marca viveram situações muito difíceis: violência, mudanças de casa, histórias muito pesadas. A marca trouxe a possibilidade de elas terem um emprego, conquistarem sua casa e comprarem suas próprias coisas. Esse propósito sempre foi muito sério para mim, porque eu vi minha mãe e minha avó trabalhando dessa forma e, mesmo assim, o dinheiro mal dava para pagar as contas. Não existia luxo. A gente morava na Estrada do Alvarenga e era uma luta diária.

O primeiro contato com o skate

Eu comecei a andar de skate porque eu tinha um ex-namorado que andava de skate. E aí eu colava na pista junto com ele. Ele não gostava que eu andasse de skate, né? Uma vez, um rapaz viu que toda hora eu estava pedindo skate de alguém para andar, porque eu não tinha um. Eu tinha uns 14 para 15 anos. Aí ele falou: "Eu vou tirar o meu shape e você fica com ele. Depois você vê se desenrola as outras peças." O rapaz que estava do lado falou: "Eu vou trocar minhas rodinhas, você quer?" Eu falei que queria. Só ficou faltando o rolamento e o truck. Esse foi o meu primeiro skate, acredita? Foi um skate que eu ganhei de outras pessoas.

Se você for parar para ver, olha o rolê da galera do skate. Não tem essa de guardar as coisas. O que não servia mais para um estava circulando para outra pessoa. Foi dessa forma que o skate entrou na minha vida. Depois comecei a andar com o meu irmão mais novo. A gente ia todos os dias para a pista de skate. Era sensacional.

O skate como transformação pessoal

O skate, para mim, é uma parada muito louca porque ele mexe muito com a Jéssica. Acho que eu nem sabia que era essa mulher tão poderosa. Ainda estou aprendendo a bater ollie. Já faz cinco anos que voltei a andar, mas infelizmente não tenho frequência porque trabalho, tenho rotina, tenho dois cachorros, tenho família. Mesmo assim, o que o skate fez com a minha vida eu levo para tudo. Hoje eu não tenho mais medo. Eu vou mesmo com medo. Também não tenho essa cobrança de precisar saber todas as manobras. Eu falo para todo mundo que simplesmente subir em cima do skate já é uma conquista enorme, principalmente depois de uma certa idade, quando a gente já carrega medos e inseguranças. Subiu, remou, já está valendo. Só vai. Vai ser feliz. Isso é muito gostoso.

Coletivo ELAS JAZZ

Com o coletivo eu estou conseguindo trazer mulheres de todas as idades para andar de skate. Tem uma senhora de 58 anos que anda com a gente. Cada uma tem seu tempo e o coletivo respeita isso. As mulheres costumam ter muita vergonha de andar sozinhas ou de chegar em pistas onde não conhecem ninguém. Quando elas estão juntas, isso muda completamente. Elas passam a se divertir e a experimentar o skate sem aquela pressão.

Eu nunca incentivo as meninas do projeto a correr atrás de patrocínio. Acho que isso é consequência. Primeiro elas precisam viver o skate, sentir essa energia.

AXÉ!

Hoje eu sempre tenho muita gratidão pelos meus ancestrais, porque se não fossem eles eu não estaria aqui. A história deles permitiu que eu estivesse nesse lugar. Então o que eu posso fazer agora é ficar cada vez mais forte e celebrar todos os dias por eles. Às vezes a gente se sente para baixo, mas é importante lembrar de onde a gente veio e quem a gente é de verdade. Nós somos reis e rainhas. Viemos de terras de muita riqueza e, muitas vezes, esquecemos disso. Eu tento lembrar disso todos os dias para conseguir colocar essa força na minha vida e ser uma mulher cada vez mais empoderada.



JAZZ NGZ& & CARMY

R. João Peixoto dos Santos, 198 - quiosque 05 - Chácara Santo Antônio (Zona Sul), São Paulo - SP, 04794-000

Horários

seg-sex 10h ás 18h

sáb 11h ás 14h

Contato
(11) 96049-4861