Poeta Marcio Ricardo

Só para loucos...

Fabrício Rodrigues

9/9/20266 min read

“Vender livros é uma coisa; manter o leitor e o escritor próximos é poesia além das folhas.”

Poeta Márcio Ricardo fala sobre arte, território e seu novo livro, Só Para Loucos.

Originalmente do território fértil do Grajaú – Jardim Lucélia, o poeta que também é MC, conta com 3 álbuns, 2 EPs, 10 livretos e agora dois livros lançados.

Trocou ideia sobre seus 20 anos de trajetória e as barreiras de construir uma vida como artista, com centenas de palestras em escolas e universidades, compreende que apenas produzir não é o suficiente para um artista periférico; é preciso que outros fatores se encontrem para viver da sua arte.

1. Trajetória e Mudanças no Cenário

"Chegando ao seu segundo livro, após 10 anos acumulando experiências e uma longa caminhada no corre da arte periférica, quais foram as principais mudanças que você observou no cenário cultural das periferias ao longo desse tempo? Seu livro é um avanço das periferias?

Márcio Ricardo:

Acho que a principal mudança foi a geração em si e as ferramentas, em 2015 se usava bastante as redes sociais, mas não como hoje. Também creio que se por um lado os tão famigerados influencers conseguiram com um celular na mão mudar a trajetória de duas vidas, percebo que o que era palpável, vivido e sentido, se perdeu um pouco.

Isso pode trazer uma certa “época” rasa. No qual os verdadeiros valores são deixados de lado. Mesmo naquela época com toda a tecnologia em crescimento, havia ainda a troca de ideia, todas de conhecimento, não que não haja, mas isso diminuiu bastante, tanto como grupos, quanto com frequentadores. E querendo ou não, isso afeta diretamente a vida artística, se para nós, as redes eram um pouco (complicada) para que as pessoas pudessem conhecer a nossa arte, agora ficou mais difícil com algoritmos, coachs e etc.

Hoje os livros são menos vendidos, os eventos não ligam tanto, a música tornou-se cada vez mais difícil ser acessada pelo público.

O meu livro, parte do antes do Poeta, o durante e o que sou hoje, uma viagem no tempo de gerações que mudaram rápido demais em pouco tempo. Acho que tivemos um pico de 3 ou 4 mudanças de geração em menos de 15 anos. Todo o momento alguém alerta F5 e atualiza e quem não corre ou tem tempo pra acompanhar, perde um passo.


2. Futebol, Nostalgia e Quebrada

A sua obra traz uma conexão forte com o amor ao futebol e uma certa nostalgia da vida na quebrada. Como essas memórias do território ganham vida na sua escrita?

Márcio Ricardo:

O meu livro conta cortes, sorrisos, lembranças e aprendizagem. E na maioria dessas vivencias o futebol estava presente, seja pela minha família ou por amigos.

Crescer dentro deste cenário e ser periférico extremiza ainda mais essa relação, já que a cada canto de uma quebrada há uma quadra, campinho ou dois chinelos em uma rua fazendo alusão a uma trave.

Pertencer a periferia é olhar pra si constantemente, ver as raízes, as evoluções e onde queremos chegar. Nenhum cidadão sente orgulho de viver onde falta saneamento básico, segurança e moradia adequada, mas defender o que temos desde que abrimos os olhos e entendemos onde estamos, é dignidade.

Trazer na escrita vivências da infância e adolescência não é só resgate, mas sim o registro eterno que aquilo existiu e um dia precisa ser lido, pesquisado e eternizado. Seja numa lata de Fanta ou um chocolate chamado Moranguete.

O segredo não tá no sabor, mas sim na essência do que foi vivido, em uma época difícil, no qual o objeto em si é só um nome, mas que acarreta em memória afetiva, amor e vida.

Eu não gosto de dar nome a coisas que já possuem um nome, mas eu gosto de dar sentido a elas. Quem ouve Fanta, nunca mais verá a lata como uma lata ou refrigerante, e sim como saudade.

3. Educação e Sobrevivência da Arte

Sua atuação abrange escolas, universidades e espaços educativos com palestras, rodas de conversa e oficinas de literatura. Como é viver exclusivamente dessa arte hoje no Brasil? É um caminho sustentável?

Márcio Ricardo:

Se houvesse um interesse maior dos poderes públicos e valorização pela nossa arte, a pergunta seria respondida com “sim”.

O problema é que eu fiz mais de 500 palestras de graça, porque ninguém queria pagar ou valorizar, mas a ideia era fazer, ganhar território, fazer o meu nome com a minha qualidade e depois receber o que era meu, pelo meu talento. Depois disso comecei a cobrar, nem sempre o valor justo para mim, mas para ambos, já que muitas escolas não arcavam e os professores que custeavam para que a apresentação rolasse.

Foi, é, e sempre será uma luta constante, creio que depois da pandemia os chamados diminuíram muito. Trazendo até uma certa escassez.

Então, hoje, não é um caminho sustentável, é preciso ser conhecido e reconhecido, ter uma linha de pessoas que possam te conectar a outras, mesmo assim, não é algo sólido. Tem que ter disposição, determinação e muita paciência.

A receptividade em escolas sempre foi incrível, mas o acesso até elas, a entrada, talvez seja o mais complicado.

4. Inspiração e a Cena Cultural do Grajaú

O Grajaú e a Zona Sul têm uma cena cultural efervescente, marcada por batalhas de rima, slams e coletivos potentes. O que mais gera inspiração nesse território para continuar escrevendo e cantando?

Márcio Ricardo:

Acho que a simplicidade das pessoas, e como são feitos os coletivos daqui. Existem centenas de referências aqui, tanto nas artes plásticas, quanto no rap e poesia falada.

Eu acho que a inspiração vem do acesso dentro da quebrada que esses eventos nos dão. Também de como se chegar em casa movimento. A gente chega, olha, assiste, ouve e vai seguindo. Até a gente ser reconhecido pelo olhar de quem tá na linha frente do evento. E isso é muito louco, porque antes, a gente chegava em um evento pra ver quem vai se apresentar, hoje quem se apresenta sabe quem tá assistindo. Isso é a troca mais genuína da quebrada, mostrar que ambos são importantes, quem faz e quem escuta, trazendo a possibilidade de que quem escuta hoje, será escutado amanhã.

Hoje escrevo músicas apenas em espanhol, trazendo uma essência latina maior. E vivendo e estudando essas ideias, a gente se reencontra dentro do próprio bairro/quebrada através desses sons que trazem a mesma essência do que vivíamos ou vivemos. É como se eu pegasse um sol de cumbia villera e ilustrasse com o que vivi.

Cantar na minha quebrada, pela minha quebrada é transformar ela em algo pertencente a nossa essência que foi construída por ela mesma.

5. Arte, Política e Posicionamento

Você enxerga a sua arte como um ato de confronto político? Na sua visão, é possível criar arte na periferia sem passar por questões sociais e políticas?

Márcio Ricardo:

Enxergo, embora hoje não estar tão atuante por conta de saúde e cansaço, sempre escrevi sobre os nossos direitos, angústias e objetivos. Visando sempre na melhora comum, não só individual. E sim, é possível criar sem passar por questões sociais e políticas, até mesmo porque o amor, ainda que seja um ato político também, ele possuí suas vertentes e individualidades. Agora só de estar bem para poder criar, isso também é política, já que existem várias demandas que nos sugam, impossibilitando estarmos bem até para escrever, projetar e seguir.

6. Nova arte e novos caminhos

Obra finalizada, como você se sente com o resultado o livro? Alcançou suas expectativas de alcance e público? E claro, como podemos comprar?

Márcio Ricardo:

Acho que este livro tem muito espaço para conquistar ainda, queria ser lembrado em feiras, bienais e saraus, é um livro incrível, com prefacios do Savoir Adore, Criolo, Maria Vilani, Emerson Alcalde, Leal Cash, Lews Barbosa, Thiago Peixoto e muito mais!

Então esse livro merece todo o respeito, pois também contém o melhor do Márcio nos últimos 20 anos.

E para comprá-lo, é só me chamar no Instagram que eu envio ou levo até o comprador. Tomamos até um café, porque vender livros é uma coisa, manter o leitor e o escritor próximos, é poesia além das folhas.

Agradecemos a Cultura&Informação Márcio Ricardo!

@poeta_marcioricardo

Entrevista realizada por: Fabricio Rodrigues